Lista de vieses cognitivos

vieses cognitivos

Vieses cognitivos são erros sistemáticos do processo de tomada de decisão, que ocorrem quando estamos processando e interpretando informações ao nosso redor.

Os vieses cognitivos podem ser causados por heurísticas, isto é, atalhos mentais. No entanto, outros fatores como pressões sociais, motivações individuais, emoções e limitações na habilidade mental de processar informações podem contribuir para a ocorrência de vieses cognitivos na tomada de decisão.

O propósito deste texto é apresentar de forma sucinta uma lista de vieses cognitivos que podem interferir no processo decisório, com suas respectivas definições e publicações científicas relevantes. O foco é apresentar vieses que interferem na tomada de decisão de investimentos. Contudo, a maior parte pode ser generalizada para variadas situações do dia a dia.

Aversão a perdas

Este viés cognitivo indica que o impacto de uma perda é maior que o impacto de um ganho na mesma proporção. Em outras palavras, o medo de perder costuma superar a satisfação de ganhar.

Estudos mostram que este impacto costuma ser em média duas vezes maior para o campo das perdas (Kahneman e Tversky, 1979) – especificamente, a perda tende a gerar um impacto 2,25 vezes maior que um ganho. A aversão a perdas pode conduzir a outros vieses cognitivos, como o efeito disposição, o efeito dotação ou ainda o status quo.

Principais referências

Genesove, D., & Mayer, C. (2001). Loss aversion and seller behavior: Evidence from the housing market. Quarterly Journal of Economics, 116(4), 1233–1260.
Kahneman, D., Knetsch, J., & Thaler, R. (1991). Anomalies: The endowment effect, loss aversion, and status quo bias. Journal of Economic Perspectives, 5(1), 193–206.
Kahneman, D., & Tversky, A. (1979). Prospect theory: An analysis of decision under risk. Econometrica, 47(2), 263–291.
Tversky, A., & Kahneman, D. (1991). Loss aversion in riskless choice: A reference-dependent model. Quarterly Journal of Economics, 106(4), 1039–1061.

 

Custos afundados

Os custos afundados (sunk costs) manifestam-se na forte tendência a continuar um empreendimento uma vez que um investimento em dinheiro, esforço ou em tempo já tenha sido realizado. Os sunk costs resultam em uma insistência em projetos que não estão correspondendo às expectativas. Quem nunca utilizou a frase: “já que chegamos até aqui, vamos até o fim!”?

Custos afundados

Principais referências

Arkes, H. R., & Blumer, C. (1985). The psychology of sunk cost. Organizational Behavior and Human Decision Processes, 35(1), 124–140.
Holcomb, J. H., & Evans, D. A. (1987). The effect of sunk costs on uncertain decisions in experimental markets. Journal of Behavioral Economics, 16(3), 59–66.
Whyte, G. (1993). Escalating Commitment in Individual and Group Decision Making: A Prospect Theory Approach. Organizational Behavior and Human Decision Processes, 54(3), 430–455.

 

Efeito disposição

Este viés cognitivo representa a tendência a realizar ganhos de forma rápida e reter ativos perdedores por bastante tempo em carteira.

O efeito disposição pode tanto ser resultado de motivações racionais quanto de motivações comportamentais. As racionais incluem rebalanceamento de carteiras, informações privadas sobre o valor fundamental de uma ação e custos de transação.

Entre as motivações comportamentais do efeito disposição encontram-se a teoria do prospecto, a crença na reversão à média, a contabilidade mental e a aversão ao arrependimento.

Odean (1998) mostrou que mesmo quando todas as motivações racionais citadas foram controladas, os investidores analisados continuaram a manifestar o efeito disposição.

Principais referências

Shefrin, H., & Statman, M. (1985). The disposition to sell winners too early and ride losers too long: Theory and evidence. Journal of Finance, 40(3), 777–790.
Odean, T. (1998). Are investors reluctant to realize their losses? Journal of Finance, 53(5), 1775–1798.
Weber, M., & Camerer, C. F. (1998). The disposition effect in securities trading: An experimental analysis. Journal of Economic Behavior and Organization, 33(2), 167–184.
Barberis, N., & Xiong, W. (2009). What drives the disposition effect? an analysis of a long-standing preference-based explanation. Journal of Finance, 64(2), 751–784.
Kaustia, M. (2010). Prospect theory and the disposition effect. Journal of Financial and Quantitative Analysis, 45(3), 791–812.

 

Efeito dotação

O efeito dotação é um viés cognitivo que indica que a disposição para aceitar (willingness to accept – WTA) um bem é geralmente superior à disposição para pagar (willingness to pay – WTP) pelo mesmo bem. Significa que as pessoas exigem mais para desistir de um objeto de sua propriedade do que estariam dispostas a pagar pelo mesmo. Este viés pode conduzir ao status quo.

Principais referências

Knetsch, J. (1989). The endowment effect and evidence of nonreversible indifference curves. The American Economic Review, 79(5), 1277–1284.
Kahneman, D., Knetsch, J., & Thaler, R. (1990). Experimental tests of the endowment effect and the Coase theorem. Journal of Political Economy, 98(6), 1325–1348.
Kahneman, D., Knetsch, J., & Thaler, R. (1991). Anomalies: The endowment effect, loss aversion, and status quo bias. Journal of Economic Perspectives, 5(1), 193–206.

 

Excesso de confiança

As pessoas tendem a sobreavaliar suas próprias habilidades, o que provoca um comportamento de maior propensão ao risco. No mercado este viés de decisão pode conduzir a um aumento do número de transações individuais e refletir em altas excessivas dos preços, bem como em bolhas especulativas.

Menkhoff et al. (2013) afirmam que na literatura de finanças o excesso de confiança tem sido tratado com pelo menos três abordagens diferentes. A primeira refere-se a uma subestimação da variância de variáveis aleatórias (má-calibração). A segunda diz respeito a uma positiva e irreal auto-avaliação. A terceira abordagem está relacionada com uma ilusão de controle. Todos estes aspectos conduzem a uma sistemática superestimação da precisão do próprio conhecimento e da probabilidade de sucessos pessoais.

 
Principais referências

Lichtenstein, S., & Fischhoff, B. (1977). Do Those Who Know More Also Know More about How Much They Know? Organizational Behavior and Human Performace, 20(1), 159–183.
Klayman, J., Soll, J. B., González-Vallejo, C., & Barlas, S. (1999). Overconfidence: It depends on how, what, and whom you ask. Organizational Behavior and Human Decision Processes, 79(3), 216–247.
Gervais, S., & Odean, T. (2001). Learning to be overconfident. Review of Financial Studies, 14(1), 1–27.
Statman, M., Thorley, S., & Vorkink, K. (2006). Investor overconfidence and trading volume. Review of Financial Studies, 19(4), 1531–1565.
Menkhoff, L., Schmeling, M., & Schmidt, U. (2013). Overconfidence, experience, and professionalism: An experimental study. Journal of Economic Behavior and Organization, 86(1), 92–101.

 

House Money

O efeito house money afirma que o grau de aversão a perdas do investidor depende de seus ganhos e perdas anteriores.

Conforme este viés cognitivo, uma perda que vem após um ganho anterior é menos dolorosa do que o oposto, pois ela é amenizada por tal ganho precedente. Ao contrário, uma perda que vem após uma perda anterior é mais dolorosa. Este comportamento reflete em uma menor aversão ao risco após um ganho e uma maior aversão ao risco após uma perda (Lucchesi, 2010).

Principais referências

Lucchesi, E. P. (2010). O efeito disposição e suas motivações comportamentais: um estudo com base na atuação de gestores de fundos de investimento em ações. Universidade de São Paulo.
Thaler, R. H., & Johnson, E. J. (1990). Gambling with the house money and trying to break even: the effects of prior outcomes on risky choice. Management Science, 36(6), 643–661.

 

Otimismo

Os termos excesso de confiança e otimismo são próximos e algumas vezes utilizados conjuntamente e sem distinção. No entanto, existem autores que fazem algumas diferenciações.

Malmendier e Tate (2005) afirmam que o excesso de confiança está relacionado com a superestimação das próprias habilidades, como QI ou habilidades de gestão. Já o excesso de otimismo é um viés que está relacionado com a superestimação pessoal acerca de resultados exógenos, que não podem ser controlados por um indivíduo, como o crescimento econômico de um país ou as oscilações no mercado de capitais, por exemplo.

Uma das consequências do otimismo exagerado, refletido em um comportamento superconfiante, é a pausa na realização de esforços antes que o objetivo previamente definido seja alcançado (Metcalfe, 1998).

Principais referências

Barros, L., & Silveira, A. da. (2008). Excesso de Confiança, Otimismo Gerencial e os Determinantes da Estrutura de Capital. Revista Brasileira de Finanças, 6(3), 293–335.
Heaton, J. (2002). Managerial optimism and corporate finance. Financial Management, 31(2), 33–45.
Malmendier, U., & Tate, G. (2005). CEO overconfidence and corporate investment. Journal of Finance, 60(6), 2661–2700.
Metcalfe, J. (1998). Cognitive optimism: self-deception or memory-based processing heuristics? Personality and Social Psychology Review, 2(2), 100–110.

 

Status quo

Viés cognitivo que representa uma tendência que temos em manter a situação atual, isto é, resistência à mudança.

Samuelson e Zeckhauser (1988) citam alguns exemplos de decisões em que se opta pelo status quo: seguir a política habitual da empresa, eleger um candidato à reeleição, comprar sempre a mesma marca de determinado produto ou permanecer no mesmo emprego.

Os indivíduos possuem uma forte tendência a manter o status quo, pois as desvantagens de sair da posição atual parecem muito maiores que as vantagens.

A aversão a perdas e a aversão ao arrependimento podem representar causas para a existência desta tendência de manter o estado atual (Kahneman, Knetsch e Thaler, 1991).

Principais referências

Kahneman, D., Knetsch, J., & Thaler, R. (1991). Anomalies: The endowment effect, loss aversion, and status quo bias. Journal of Economic Perspectives, 5(1), 193–206.
Samuelson, W., & Zeckhauser, R. (1988). Status quo bias in decision making. Journal of Risk and Uncertainty, 1(1), 7–59.
Saurin, V., Prates, W. R., da Costa Jr, N. C. A., & Armada, M. J. da R. (2011). O relacionamento entre o viés do status quo e o perfil de risco em tomadas de decisões financeiras. Revista de Economia E Administração, 10(3), 415–436.