Duas formas de pensar: sistema 1 e sistema 2

Nos últimos anos, pesquisadores da área de psicologia cognitiva têm buscado explicar a forma pela qual o ser humano toma decisões por meio da divisão da função cognitiva em dois grupos genéricos: sistema 1 e sistema 2. Enquanto o primeiro sistema representa um modo intuitivo de agir, o segundo é caracterizado por ser um modo mais controlado de tomar decisões. Esta abordagem separa a intuição da razão, conforme explica Evans (2010).

Entendendo o sistema 1 e sistema 2

Podemos dizer que as operações realizadas no sistema 1 são normalmente rápidas, não geram esforços, provocam associações e são carregadas de emoções. Por outro lado, o sistema 2 é mais lento, exige mais esforços e é constantemente submetido a controles (de Neys, 2006).

Como o sistema 1 não exige esforços, ele pode ser combinado com outras tarefas que igualmente não exijam esforços. Já a capacidade de atividade mental no sistema 2 é limitada, ou seja, uma tarefa que requer esforços tende a anular outra tarefa do mesmo nível de dificuldade (Kahneman, 2003).

Tanto as operações do sistema 1 quanto as do sistema 2 não estão restritas apenas ao processamento de situações correntes. O sistema 1, por exemplo, lida tanto com conceitos quanto com percepções e pode ser provocado pela linguagem. Por sua vez, o sistema 2 está envolvido em julgamentos que são originários das impressões obtidas através do sistema 1.

Operações matemáticas básicas, como $$2+2$$ ou o nome de uma capital conhecida são exemplos de operações tratadas pelo sistema 1. Todavia, operações matemáticas mais complexas, como multiplicações com números de dois algarismos, focar a audição em um som específico em meio a um ambiente com ruídos, ou checar a validade de um argumento lógico complexo, fazem parte das operações feitas pelo sistema 2 (Kahneman, 2003).

É possível encontrar uma discussão a respeito das evidências empíricas da atuação dos sistemas 1 e 2 na tomada de decisão em autores como Evans (2003, 2010) e de Neys (2006), bem como Wason e Evans (1974).

Teste das quatro cartas de Wason

De forma geral, as pessoas tendem a tomar decisões rápidas por associação (Evans, 2003) – leia sobre heurísticas e vieses.

A tarefa de Wason, ou o teste das quatro cartas de Wason é um exemplo da dupla forma de raciocínio dos sistemas 1 e 2. No teste, as escolhas que podem ser feitas sofrem alterações de conteúdo e de contexto (Wason, 1966, 1968).

Considerando que na alternativa “a” cada carta possui um número de um lado e uma letra de outro e que na alternativa “b” cada carta possui uma bebida de uma lado e uma idade de outro, a tarefa consiste em escolher quantos cartões forem necessários para validar logicamente as afirmativas “a” e “b” e verificar se são verdadeiras ou falsas conforme a figura abaixo.

Teste de Wason – exemplo extraído de Evans (2003)

A pergunta que deve ser respondida para resolver o teste é: no mínimo, quantas e quais cartas devem ser viradas para que seja possível verificar logicamente a validade de cada uma das sentenças?

Resposta do teste de Wason

Na alternativa “a” a resposta correta é que deveríamos virar os cartões “A” e “7”, pois assim conseguiríamos encontrar um cartão que possui um “A” de um lado e não possui um “3” do outro. No entanto, a maioria dos indivíduos costuma responder que na alternativa “a” deveríamos virar os cartões “A” e “3”.

A alternativa “b” da figura representa o mesmo jogo, apenas altera o contexto. O respondente precisa virar os cartões para visualizar se a afirmativa é verdadeira. Na letra “b” a maioria dos indivíduos costuma responder que é necessário virar os cartões “bebe cerveja” e “16 anos”, ou seja, a afirmativa correta e que corresponde aos cartões “A” e “7” da primeira alternativa.

Esta é uma questão de raciocínio lógico, que envolve uma proposição condicional do tipo “Se p, então q” ($$p \rightarrow q $$).

Conforme a tabela-verdade de uma proposição condicional, o único momento em que esta proposição é falsa ocorre quando “p” é verdadeira e “q” é falsa.

Sendo assim, para verificar a validade na alternativa “b” do teste de Wason, por exemplo, basta analisar se em algum momento o indivíduo “bebe cerveja” e possui menos de 18 anos.

Portanto, a única forma de checar a validade é virar os cartões “bebe cerveja” e “16 anos de idade”. A alternativa “a” do teste possui a mesma resposta, alterando apenas o conteúdo dos cartões.

Explicação do teste de Wason

A explicação para o que ocorre com as respostas do teste de Wason, conforme Evans (2003), diz respeito ao sistema 1 e ao sistema 2. No primeiro caso – alternativa “a” – os indivíduos relacionam, através do sistema 1, os dados “A” e “3”, pois estes constam no enunciado, explica Evans (2003).

Essa associação induz o indivíduo a responder erroneamente. No segundo caso – alternativa “b” – os respondentes precisam refletir mais a respeito da resposta, utilizando o sistema 2, que leva o indivíduo a responder corretamente.

Adicionalmente, Wason e Evans (1974) afirmam que a introdução de sentenças negativas usadas em uma questão que exige raciocínio dedutivo dos respondentes afeta o comportamento destes de forma sistemática e difere do comportamento esperado de acordo com a estrutura lógica da questão.

Os autores solicitaram aos respondentes que justificassem suas respostas, inclusive aquelas com a introdução de sentenças negativas, que estavam em desacordo com a ordem lógica esperada. Não foram obtidas respostas plausíveis, que pudessem justificar o comportamento dos respondentes.

Dessa forma, Wason e Evans (1974) sugerem a existência de pelo menos duas formas de raciocínio, capazes de ocasionar conflitos entre o comportamento e o pensamento consciente. Ou seja, Wason e Evans (1974) já estavam percebendo a existência do que seria posteriormente denominado de sistema 1 e sistema 2.

Segue citação do próprio Wason (1968):

Dois experimentos foram realizados para investigar a dificuldade de fazer a inferência contra-positivo de sentenças condicionais da forma, “se P, então Q.” Essa inferência, que não-P resulta de não-Q, requer a transformação das informações apresentadas na sentença condicional. Sugere-se que a dificuldade é devido a uma disposição mental para se esperar uma relação de verdade, de correspondência, ou de combinação entre as frases e estados de coisas.

Considerações

A ideia de que existem duas formas gerais de pensar e tomar decisões tem se tornado popular recentemente, sendo que Kahneman (2012) é um dos principais responsáveis por esta popularização.

A proposta é que existem dois sistemas que influenciam na maneira pela qual os indivíduos tomam decisões: o sistema 1 e o sistema 2.

O primeiro sistema – a intuição –, conforme Evans (2010), tem sido associado com uma forma de cognição que é primária em termos evolucionários, relacionada com a cognição dos animais e é normalmente operado de forma inconsciente.

O segundo sistema – a razão –, por sua vez, é responsável pelo raciocínio dedutivo, pelo planejamento, pelo aprendizado, entre outros.

Uma crítica a esta abordagem refere-se à utilização do termo “sistema”. Evans (2010) afirma que os autores que criticam a classificação em dois sistemas argumentam que existem muito mais do que dois sistemas operando no processo de tomada de decisão. Sendo assim, a proposta de Evans (2010) é substituir o termo “sistema” por “tipo”. Dessa forma, tanto o “tipo 1”, quanto o “tipo 2” são compostos de diversos sistemas e sub-sistemas que possuem, respectivamente, as características do pensamento intuitivo e da razão.

Não é possível definir se a intuição é melhor ou pior do que a razão.

Em algumas situações o uso do sistema 1 pode ser muito benéfico, como no caso de tomar decisões rápidas no trânsito para evitar um acidente. Contudo, em outras situações o sistema 1 pode utilizar-se de heurísticas e de vieses, bloqueando parte da capacidade que temos de raciocinar e escolher a melhor decisão.

Por fim, cabe ressaltar que os dois sistemas (ou tipos) atuam nas mais variadas áreas do nosso cotidiano em que precisamos tomar decisões. Sendo assim, a tarefa de cada um é treinar o uso da razão e do controle e identificar quais os momentos nos quais cabe o uso do sistema 1 ou do sistema 2.

Referências

de Neys, W. (2006). Dual processing in reasoning: two systems but one reasoner. Psychological Science, 17(5), 428–33.
Evans, J. S. B. T. (2003). In two minds: dual-process accounts of reasoning. Trends in Cognitive Sciences, 7(10), 454–459.
Evans, J. S. B. T. (2010). Intuition and Reasoning: A Dual-Process Perspective. Psychological Inquiry, 21(4), 313–326.
Kahneman, D. (2003). A Perspective on Judgment and Choice: mapping bounded rationality. American Psychologist, 58(9), 697–720.
Kahneman, D. (2012). Rápido e devagar: duas formas de pensar (p. 607). Rio de Janeiro: Objetiva.
Wason, P. C. (1966). New horizons in psychology. In B. M. Foss. Baltimore, MD: Penguin.
Wason, P. C. (1968). Reasoning about a rule. Quarterly Journal of Experimental Psychology, 20(3), 273–281.
Wason, P. C., & Evans, J. T. (1974). Dual processes in reasoning? Cognition, 3(2), 141–154.